Os millennials estão prontos para envelhecer?

Crescemos achando que vamos viver para sempre, e não teve uma única geração no mundo que conseguiu reverter essa máxima. Se já é difícil envelhecer em termos normais, como é enfrentar esta página da vida sendo a geração que emplacou os jovens como o vetor de mudanças cruciais na economia e sociedade mundial? Os millennials estão autorizados a envelhecer?

Se quando você era adolescente esperava dar meia-noite para poder usar a internet com apenas ‘um pulso’, você provavelmente já rompeu a mítica barreira da juventude. O principal delírio social da humanidade sobrevive há milênios, e intacto. O que antes era ficção científica, fonte da vida, alquimia, mitologia ‘braba’, aos poucos tornou-se uma indústria que vende um sonho, um cálice sagrado de ácido hialurônico e vitamina C, um vislumbre — que é extremamente atraente. À medida que as pessoas LGBT’s foram conquistando cada vez mais espaço, ganharam de brinde um alvará de não seguir o status quo. Ser jovem (e LGBT) tornou-se uma expressão contínua de autenticidade, confiança, beleza, sexualidade, e claro, tendência. Contudo, a invenção do ‘jovem livre’ dos anos 2000, trouxe consigo a falsa sensação de que se poderia experimentar o êxtase (ou ecstasy) eternamente. Em 2021, a chamada geração Y, Globalistas, ‘Digital Youth’, “We”, Millennials, está acordando do maior porre de sua vida: o que diabos está acontecendo? Quem é essa pessoa com 40 anos na frente do espelho? E o mais importante: o que eu faço com ela daqui pra frente?

Do Meme ao Cancelamento

Os Millennials são a geração mais recente dos hedonistas modernos. Existem várias nomenclaturas, mas basicamente, estão inseridos na categoria de Geração Y quem nasceu entre o início dos anos 80 até o início dos anos 2000 (alguns estudos falam no intervalo entre 1980 e 1995). Enquanto o fim da Geração X viu o início do progresso tecnológico nascer, os millennials cresceram imersos nele, a geração que estava ‘a um clique de distância’ de absolutamente tudo. Conectaram não somente pessoas, mas deram a elas a capacidade de transcender aos espaços geográficos, onde todos os conteúdos poderiam ser vistos e mixados.

Criaram os smartphones, os memes, o autotune, aceleraram o processo de celebrização de pessoas comuns, e trouxeram para dentro de seus quartos um poder de mudança e alcance que, em algum ponto, a capacidade de experimentação soava quase infinita. No início dos anos 2000, possuíam um poder de influência no mundo capitalista maior do que qualquer geração na história.

No início dos anos 2000, os millennials correspondiam ao impressionante número de 2,3 bilhões de pessoas movimentando a malha social e econômica do mundo com um poder de compra 111% maior do que seus pais quando eram jovens. Os LGBT’s foram parte importantíssima desse processo. E porque os millenials LGBT’s entram nessa equação com atenção redobrada? Porque esse novo grupo consumidor surgiu e cimentou a ideia de continuidade. Saíram de suas casas, tomaram as rédeas de seus sonhos, e longe do escrutínio do preconceito alocado na vida familiar, os LGBT’s millennials viram no progresso uma oportunidade de criar a imortalidade. Basta olhar no retrospecto para notar que há 20 anos atrás as corporações sequer pensavam em Pride Month.

Para ser uma ideia em volume, de acordo com um estudo publicado pela Witeck-Combs, o poder de compra do LGBT americano passou de 660 bilhões de dólares em 2007, para 835 bilhões em 2011. No Brasil, em 2006, os 9,2 milhões de consumidores declarados LGBT’s, gastaram em média mais de 100 bilhões de dólares anuais, e consumiram em média 30% mais em bens de consumo do que um mesmo consumidor heterossexual na mesma faixa econômica. Hoje os LGBT’s brasileiros somam mais de 18 milhões de pessoas, a maioria concentrada nos grandes centros do país, e por consequência, influenciando ainda mais a cultura e sociedade do país. Emplacamos uma drag queen nos charts musicais, uma representatividade engatinhando na política, e nossa MPB hoje é diversa e universalizada; – temos galãs assumidamente gays nas telas – ainda que isso acabe gerando muita discussão desnecessária em pleno 2021.

Mas com a permissão para afrontar e confrontar o sistema, é preciso reconhecer aquele que foi e é eternamente o regulador desse mercado todo – o Tempo. Saturno, o pai implacável, está aqui para escancarar uma dura verdade para o millennial no início dos anos 20 – o highlight é outro, e estão trocando o elenco dessa peça. O que acontece com o legado de todos estes rótulos que se construíram e que naturalmente estão caindo por terra?

Crinjamos’

Quem hoje possui 30 anos ou mais, provavelmente foi ‘agredido’ moralmente na internet nas últimas semanas com o surgimento e alastramento como fogo selvagem da palavra cringe. O termo esfregou na cara dos millennials uma dura verdade que a imersão da internet escondeu por trás dos filtros e coreografias: estamos envelhecendo, e rápido! A corrida pelo corpo perfeito, a pele sem rugas, o cabelo tratado, e as grifes estampadas nos detalhes, não estão sendo suficientes. Até o uso indiscriminado da palavra cringe em si, estampou que o millennial está virando “a tia da internet” – satura tudo, e não consegue desapegar do passado.

Nessa altura do campeonato, não se trata mais de em qual festa você vai estar, porque as prioridades estão naturalmente mudando, e sua coluna também. Parece que todos os conselhos dos pais estão finalmente se concretizando, e o millennial está descobrindo não ser tão especial assim quanto pensava. Os anos passaram, e as promessas que o espírito de criação ilimitada e liberdade prometeram, não estão no mesmo script que vive-se atualmente.

No fim, o millennial está descobrindo ser apenas mais um na multidão, cheio de inseguranças e limitações. Isto está associado à geração como um todo, claro, mas o millennial LGBT em especial precisa correr atrás do “tempo perdido”, porque para nós, o tempo passa um pouco diferente do que pro restante das outras pessoas.

Os Sommeliers de Ansiolíticos

Há um tempo atrás, um tweet viralizou com a seguinte mensagem: “Pessoas LGBTs não crescem sendo elas mesmas. Crescem sacrificando e limitando suas espontaneidades para minimizar humilhações e preconceitos. Nosso maior desafio da vida adulta é escolher quais partes de nós são o que somos de verdade, e quais criamos para nos proteger do mundo.”

Mais e mais pessoas LGBT’s estão hoje sentadas em divãs, tentando entender o resultado de anos de violência psicológica (e física), tentando sair vivos de todas essas pressões causadas, feridos e sem identidade. Nunca se consumiu tantos remédios para ansiedade e nunca diagnosticaram tantas pessoas com transtornos psicológicos como agora. Tem-se um remédio para acordar e um para dormir, no mínimo.

A teoria do minority stress (estresse de minorias, em português) é uma das teorias que propõe que o volume de estresses sofridos de forma crônica e quase initerrupta ao longo da vida em decorrência da discriminação, estigma, disforia, rejeição, e violência, contribuem para que essa população tenha risco aumentado em sua saúde física e mental em relação ao restante das pessoas.

A verdade é que se você não está fazendo terapia ainda, você vai começar em algum momento. E isso é positivo, claro, afinal a geração anterior precisava muito de terapia, e o trabalho de remover todo esse entulho ficou para a geração seguinte. Mas a pergunta aqui é se vamos tratar o sintoma ou a causa.

O uso indiscriminado de drogas lícitas e ilícitas, por exemplo, explicita também uma linha muito difusa entre a diversão, o abuso e a alienação da realidade. Não é necessário ser caga-regras, não há um molde ou culpa religiosa aqui. Mas há sim um ponto de atenção quando o uso descontrolado, espelhado na ideia de ‘Live Fast, Die Young’, leva muitos LGBT’s para calabouços escuros de sua própria existência ainda no início da vida adulta.

Por ser a geração de transição, a ponte entre o velho e novo, criamos algumas novas regras, mas a cabeça parece não ter seguido esse roteiro tão bem quanto pensávamos. Assumimos a liberdade de sermos quem quisermos, mas em algum ponto ainda estamos presos nos velhos moldes – o mundo ainda é governado por pessoas que não nos representam, e a geração que vem à frente parece começar a se descolar de nós.

Casa própria ou nômade digital? Família e filhos, ou esse é só um sonho romântico de cartilha? Trabalhar com o que ama, ou ressignificar o que se tem nas mãos? Streamings, Go vegan! Go Wildcats (ops, é cringe!).

O alarme das escolhas que vão fazer diferença nos próximos 15 ou 20 anos, está tocando cada vez mais alto, e a palavra que surge no ruído desse som, é um filho bizarro do capitalismo moderno – a descartabilidade.

“Em breve, Cacuras”

Se você nasceu em 1980, está agora olhando assustado para a realidade de que, em breve, estará flertando com a terceira idade. Esse nome assusta, e não é pra menos. A humanidade tem uma relação terrível com a velhice, e esse tema é basicamente o ponto central deste artigo: estamos autorizados a envelhecer?

Não precisamos de autorização alguma, isso deveria ser óbvio, muito embora demore a ser uma verdade integrada. Ainda tem-se a métrica dos Boomers e da Geração X, que diz que aos 50 a vida acabou. A velhice não é um atestado de morte, e há muito o que ser mudado para oferecer uma vida digna quando o fervo acaba. O papel aqui é ressignificar padrões.

Se em comparação, os idosos heterossexuais estão esquecidos, os idosos LGBT’s são praticamente invisíveis. São os jovens estigmatizados de um passado remoto de ostracismo, morte e violência, que agora encaram a velhice tendo de escolher entre a solidão e o retorno à moradias onde os preconceitos continuam vivos. Uma geração cuja batalha propiciou uma revolução de direitos para a comunidade, mas que continua sem ter transformado totalmente as suas próprias vidas. E este é um sintoma mundial e de responsabilidade coletiva.

Isso nos traz novamente a ideia de que o tempo passa diferente para os LGBTs. Em um artigo publicado este ano por Maria Carolina Abe para o Brazil Journal, por exemplo, diz que o futuro é encarado de maneira diferente pelos LGBT’s quando o assunto é investimento. Um relatório publicado pelo Banco UBS, diz que a estratégia de investimento do público LGBT precisa ser repensada. A rejeição e o preconceito dentro de casa, faz as pessoas LGBTs saírem em rumo aos grandes centros aumentando a insegurança financeira e não permitindo investimentos de longo prazo – “É mais fácil assumir riscos se há um lar para onde voltar!” – diz o relatório. Fora que investir por si só é um privilégio de poucos.

Há ainda a questão da longevidade nos casais. Os formados por duas mulheres, tendem a viver dois anos a mais que casais heterossexuais, e três anos e meio a mais que casais gays cis masculinos. Fora o fato destas pessoas não estarem seguras sendo elas mesmas em seus postos de trabalho, sendo muitas vezes podadas em um plano de carreira por conta da orientação sexual – mais instabilidade. 

Precisamos olhar para o futuro ainda exercendo as regras do jogo atual, porém lutando para revertê-las, sendo óbvio o declínio do modelo econômico como o conhecemos. É quase certo que o LGBT millennial não se aposente, por exemplo. E o que fazer então quando o mercado nos cuspir? Mudar o mercado. 

Como pioneiros, precisamos repensar todo o modelo. Convergir o nosso poder de transformação em ações, é o grande desafio, mas isso leva tempo (e o sentimento geral é que não o temos). Manter presença política, estar em espaços onde somos rejeitados, traçar um plano de acolhimento real e significativo ao idoso LGBT e principalmente, mudar comportamentos espelhados em uma sociedade binária, especialmente entre nós mesmos.

O Controle do Vídeo-Game Nunca foi Seu, Baby!

Ok, a ficha de que os anos passaram está caindo e fica cada vez mais difícil não olhar para a vida de maneira mais prática. Enquanto os millennials cresceram ouvindo a máxima expressão de sua individualidade “Você importa!”, a verdade é que o rolo compressor da vida diz algo mais próximo de “Poxa, você é importante sim, mas toda essa gente aqui também!”. Se todo mundo importa, logo talvez você não seja assim esse ‘alecrim dourado’ que achou que era. Chegou a hora de olhar para essa casa cheia de móveis herdados e decidir o que dá para reciclar, e o que você precisa finalmente jogar fora.

No Brasil, o recorte social é o recorte que importa. Não adianta relacionar todo LGBT com a imagem do gay médio branco cis que anda na Avenida Paulista de mãos dadas com o namorado, porque o recorte é infinitamente maior e complexo. Como iniciar uma conversa sobre a terceira idade LGBT se temos pessoas trans com a mesma expectativa de alguém da idade média?

Saindo deste ponto, o próximo é transformarmos a nós mesmos e nossa relação com o mundo. Não é o papo namastê de espiritualização, veganismo, minimalismo – que são correntes válidas e necessárias, mas ainda refletem a palavra privilégio.  Precisamos de um olhar menos severo e idealista das nossas escolhas. Precisamos ocupar novos espaços, todos eles. Enquanto focarmos em reproduzir modelos que estão ultrapassados, sejam eles econômicos, sociais ou de relações humanas (herança de um mundo binário e segregador), vamos estar reféns de nós mesmos, morrendo à nossa própria margem.

Em relação a letra G da sigla, especificamente, as pazes com o envelhecimento passam invariavelmente pelo mito da relação com o corpo. Homens gays em geral recusam-se a envelhecer. O foco na saúde mental, e consequentemente na saúde física, é a chave crucial dessa inversão. A emancipação dos corpos diversos, iniciada recentemente, pode ser a chave a abrir essa porta para o millennial LGBT envelhecer em paz, pelo menos neste aspecto.

Envelhecer não significa perder a alegria e a autenticidade de ser feliz como lhe cabe. Envelhecer não tem roupa própria e corte de cabelo definido. Somos bons em inventar novas habilidades em nos comunicarmos. Olhando no retrospecto, a linguagem de emojis talvez seja lida no futuro como os hieróglifos modernos (gays se comunicam no twitter usando apenas asteriscos – e funciona!), assim como a afirmação de identidades sexuais diversas sejam o primeiro tijolo da desconstrução da binaridade humana através de um longo processo.

Não precisamos cometer o erro crasso de nossos pais, que se distanciaram de nós por conta da tecnologia e agora estão correndo para se equiparar.

Quando fala-se em ressignificar padrões, é transformar a sociedade de maneira profunda, revertendo olhares que atingem apenas a superfície da nossa existência. Precisamos sair desse terreno lamacento da homofobia o quanto antes, ou o nosso horizonte vai continuar nebuloso. As pautas não avançam se o básico está anulado. Precisamos romper o armário da nossa existência antes de tudo, tendo em mente que, se um de nós está para trás, todos nós estamos.

Olha de novo nesse espelho e reconheça o seu legado, millennial.

Nós vamos ficar bem! (Façam terapia!)

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Criadores iD