Não é só mutar: a cultura de ódio presente nos jogos online

Você já deve ter começado a ver em seu feed, de diversas fontes diferentes, pautas sobre a importância em cuidar da saúde mental e também sobre prevenção ao suicídio, devido as campanhas de conscientização do Setembro Amarelo.

E quando um ambiente como o dos jogos online, que supostamente deveria ser divertido, acaba se tornando extremamente tóxico e nocivo?

Desde quando desabilitar os chats e fingir que nada daquilo existe é a solução? Vamos falar sobre isso hoje na coluna Press Start, porque #NãoÉSóMutar.

Se por um lado a indústria dos games cada vez mais se abre e num misto de ficção com realidade consegue mesclar e trazer temas, personagens e narrativas que aproximem todos os tipos de pessoa a esse meio, por outro, parte da comunidade se recusa a evoluir, fato que explica os dados a seguir:

Segundo dados da ONG americana ADL (Anti Defamation League), 74% dos Jogadores online já sofreram assédio em jogos competitivos online. Sendo deste número, mais da metade assédios morais vinculados ao preconceito, seja por questões etnico raciais, de gênero ou orientação sexual.

Ainda na pesquisa, 38% e 35% das jogadoras mulheres e os jogadores LGBT+ declaram sofrer assédio frequente e de maneira rotineira por conta de gênero e orientação sexual.

E o que leva isso a acontecer?

A internet que democratiza espaços e dá acesso a informação, também é a internet onde anônimos com más intenções se escondem por trás de nicknames e fotos de personagens fictícios onde se prendem a uma falsa e inconsequente sensação de poder; aproveitam do palco virtual e do anonimato para propagar o ódio e direcionar ofensas, sem pensar (ou se importar) com as consequências disso na vida de outras pessoas e também, deles mesmos.

E a justiça tarda mas (em teoria) não falha: Crimes virtuais, seja em casos de racismo, homofobia ou assédio, são crimes como quaisquer outros e suas punições não se limitam ao ambiente virtual.

Mulheres lutando (literalmente) contra o machismo na comunidade gamer

Segundo a pesquisa Game Brasil 2016, da ESPM, as mulheres já representam 52% do público que joga games no país. E quem pensa que esse avanço é prova de que a luta para ocupar esses espaços acabou, está enganado.

A jogadora brasileira Cristina Santos, que é recordista mundial de Super Street Fighter IV: Arcade Edition, um clássico nos jogos de luta, revela ter sido alvo de criticas, ataques e perseguições pelo simples fato de ser mulher. Enquanto fora do ambiente virutal, muitos questionavam suas habilidades quando ela citava o game. (sendo que ela é só tipo… a MELHOR do mundo).

Conheça Cristina "Olakristal" Santos, a brasileira com maior Gamerscore na Xbox Live e que dá muita porrada em "SSF IV"! - GameHall

“E não é mais fácil só mutar o chat e ignorar os comentários negativos?” Não!

Se problemas sociais, mesmo que manifestados no ambiente virtual, fossem solucionados de maneira tão simples, como apenas… Ignorá-los, não seriam realmente problemas.

Além de toda a questão de culpabilização da vítima que existe em cima dessa problemática frase, isso é uma maneira de “cobrir o sol com a peneira” e perpetuar ainda mais a toxicidade dentro da comunidade.

Como se não legitimar comportamentos nocivos não fosse o bastante, é uma solução falha: Ainda falando sobre a pesquisa da ong americana ADL, citada anteriormente, dados apontam que 29% dos jogadores já foram vítimas de “dox“, uma prática que se resume em ter a identidade e/ou informações pessoais pesquisadas e divulgadas por outra pessoa.

Então, não, não é só mutar os chats. Não é só tampar o sol com a peneira e fingir que comportamentos tóxicos são normais, só porque são comuns. É preciso tratar esses temas com seriedade para que os trolls não sejam maiores que o entretenimento.

E você, o que fez hoje para tornar esse espaço melhor?

Haziel Schneider

Publicitário em formação, sailor senshi em treinamento e curioso por natureza, desde 1997 se perdendo no personagem mas ainda assim upando de level. Sabe fazer mágica com as palavras e também utilizar a comunicação pra sair de enrrascadas. Apaixonado por música e cultura pop, é o parceiro perfeito pra discutir qual a melhor skin do LOL ou qual o videoclipe mais visto do Youtube.

 

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Criadores iD

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