mercado de influência pós-pandemia

Espírito do tempo em transformação: O novo cenário do mercado de influência

Criar conteúdo em um momento tão delicado e incerto tem sido um desafio para qualquer pessoa (ou máquina, por que não?) que se aventure na internet. Nem os grandes bureaus de pesquisa de tendências têm muitas certezas do que vai ser daqui pra frente. O que é certo na atualidade, é que velhas fórmulas de comunicação pré-pandemia já não funcionam mais.

A crise do coronavírus acelerou nosso futuro e antecipou transformação no comportamento da sociedade que, como nunca antes, vê agora na internet a sua maior ferramenta de consumo. Neste novo contexto o mercado de influência, apesar da necessidade de adaptações, conseguiu crescer e expandir seus números.

Segundo o portal Meio e Mensagem, o isolamento social trouxe um aumento de 24% na taxa de engajamento dos criadores de conteúdo e 27% no alcance dos seus stories. Ainda no Instagram, os comentários nas fotos de influenciadores cresceram vertiginosos 60,89% nesse período, segundo o jornal Estadão.

Com o engajamento em alta e seu público tendo muitas vezes apenas a internet como companhia, o momento para os criadores se tornou bastante favorável. Houve um aumento de cerca de 60% na procura dos anunciantes por ações com influenciadores na quarentena, mas nem todo criador e nem todo conteúdo tiveram perspectivas tão felizes assim. A falta de análise de contexto e empatia com a realidade do público conseguiu “cancelar” alguns perfis na internet (e *oda-se a vida!).

Logo no início do período de isolamento um artigo do The New York Times chamou atenção ao trazer a cultura da celebridade como tema. Em “Celebrity Culture is Burning” (A cultura da celebridade está pegando fogo, em tradução livre), a autora Amanda Hess elenca de forma bastante consistente, sinais de que a cultura da ostentação e do lifestyle inalcançável tiveram sua percepção pelo público fortemente afetadas devido ao estado de pandemia global.

“Entre os impactos sociais do coronavírus está o rápido desmantelamento do culto às celebridades. Os famosos são embaixadores da meritocracia; eles representam a busca americana de riqueza através de talento, charme e trabalho duro. Mas o sonho da mobilidade de classe se dissipa quando a sociedade trava, a economia para, a contagem da morte aumenta e o futuro de todos fica congelado dentro de seu próprio apartamento lotado ou mansão palaciana.” (Tradução de Celebrity Culture is Burning, por Amanda Hess)

Da mesma forma que estes impactos são observados entre as celebridades, também afetam criadores de conteúdo e influenciadores digitais. A responsabilidade em criar conteúdo na internet redobrou em 2020 pois, em tempos de isolamento, por muitas vezes os influenciadores se tornam a maior companhia de seus seguidores.

A consultoria Consumoteca apontou um crescimento de 70% no tráfego de internet global nos países afetados pela Covid-19. Segundo pesquisas realizadas pelo grupo, a fórmula utilizada pelos influenciadores para se comunicarem antes da quarentena já não tem funcionado mais. 57% dos pesquisados passaram a acompanhar mais o conteúdo produzido por amigos e parentes do que o de influenciadores durante a quarentena.

Os números demonstram uma grande perda de sentido no consumo de um estilo de vida tão discrepante da realidade da maioria. O privilégio do outro escancarado em nossas telas passou a incomodar e a comparação do isolamento em um apartamento pequeno com as “férias forçadas” em mansões que parecem resorts é inevitável. Diferente do discurso de inúmeras celebridades em stories esperançosos, o Coronavírus não foi um fenômeno equalizador, mas sim deu maior visibilidade à desigualdade entre “famosos” e “anônimos”.

É neste contexto que começa a surgir o “novo normal” da influência na internet (sim, ninguém aguenta mais ouvir esse termo). O mercado de influência começa a seguir uma nova lógica e tomar novos rumos, há muito tempo já esperados. A atualidade exige uma reinvenção de cada criador de conteúdo, o que a consultoria Consumoteca chama de Influenciador Híbrido.

O criador de conteúdo do futuro não vai poder dissociar a conjuntura de sua comunidade daquilo que ele produz. É cada vez mais necessária a habilidade de ler o mundo e repensar seu conteúdo a todo momento. Ainda segundo a consultoria, 54% das pessoas estão revendo as listas de pessoas que seguem e quem lidera esta estatística são consumidores da geração Z.

Essa geração de consumidores, que hoje está entrando em sua fase potencial máxima de consumo,tem transformado profundamente o mercado. Suas características e exigência por verdade e transparência na internet têm impulsionado mudanças estruturais no consumo global. Os Zs são também a geração que menos têm problemas com a publicidade via influenciadores. Apenas 35% se incomoda com ela, o problema para eles é a falta de contexto e a “forçação de barra”.

Cresce cada vez mais a importância da confiança entre marcas e influenciadores. Em um momento tão delicado, qualquer estratégia ou ação de um criador pode afetar não só sua carreira mas também marcas as quais sua imagem está atrelada. Fica explícito também a importância do alinhamento de valores entre criadores e a geração de consumidores que a marca pretende impactar.

O ano de 2020 trouxe uma nova realidade ao universo da criação de conteúdo. Inteligência de mercado, análise de conjuntura e conhecimento profundo das características do público alvo a ser atingido são características necessárias para marca e agora, muito mais do que antes, para criadores de conteúdo.

Momentos de crise global sempre geram atualizações no comportamento e consumo de uma sociedade. Na internet, um ambiente tão sensível e dinâmico, esses momentos serão cada vez mais constantes e o criador de conteúdo do futuro deve estar preparado para repensar sua lógica e atualizar constantemente suas fórmulas.

 

Henri AlvesHenri Alves

Apaixonado pela estética maximalista, manda áudios longos e é geminiano, óbvio! Estuda comportamento e consumo, é Graduando em Moda no Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina e adora música pop. Também pesquisa tendências e inovação dentro do time de conteúdo da Dia Estúdio 🙂

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