Mães travestis e transexuais e as novas configurações de família

Ser mãe ainda implica na discussão de muitas camadas sociais que estão sendo revolucionadas com as transformações dos indivíduos e suas expressões

Ser mãe. Este, que é tido como um dos principais papéis já construídos na história da humanidade, está passando por uma revolução. As flores e eletrodomésticos como presente estão aos poucos sendo substituídos por discussões acaloradas sobre os moldes desta quase “profissão” e da composição da família. Existe um provérbio africano que diz: “É preciso uma aldeia inteira para criar uma criança.”. Isso é verdade, mas agora essa “aldeia” abandonou as divisões binárias, em tempo, e está muito mais plural. 

Frases que descrevem a maternidade não faltam. Toda mãe deve ter dito pelo menos uma vez na vida a célebre frase “Ser mãe é padecer no paraíso.”. Muito embora esta sentença tenha sido constantemente proferida como forma de elogio, denota uma violência psicológica às mulheres, que sob a asa do patriarcado, acabavam exauridas na tarefa de educar filhos, cuidar da casa e ser totalmente responsável pela direção e resultado do caráter de outro ser humano, ou de muitos. É fato que para ser mãe nos dias atuais é preciso, além de planejamento, uma revisão de metas e de como a maternidade pode ser lida contemporaneamente.

O debate sobre o conceito de família

O conceito de família mudou drasticamente ao longo de 70 anos. Até o início da Segunda Guerra, às mulheres cabia apenas o papel de cuidadoras, donas do lar, escondidas sob o domínio financeiro e social dos maridos. Com um mundo devastado e famílias partidas, elas tiveram que se inserir no mercado de trabalho e migrar do papel de cuidadora para o de provedora. Isso redesenhou os modelos das famílias pelo mundo, criando outros formatos e desafiando os papéis sagrados de gênero construídos ao longo de muitos séculos. Isso sem levar em conta que pessoas LGBTQIA+ sequer entravam nessa matemática.

Hoje temos famílias com dois pais, duas mães, maternidades e paternidades solitárias, e tantas outras. O uso do termo família homoparental ainda é questionada por estudiosos, pois coloca ênfase na orientação sexual destes pais e mães e a associa ao cuidado dos filhos. Essa conexão, além de perigosa, é, justamente, o que os estudos sobre o assunto se propõem a desfazer.

Homens e mulheres homossexuais podem ser ou não bons pais e mães, da mesma forma como homens e mulheres heterossexuais. Além disso, devem exercer papéis definidos não pelo gênero, mas pelo acolhimento parental.

É como se o fato de ter uma família diferente dos modelos pautados em moldes religiosos e sociais, automaticamente implicasse na exclusão de qualquer falha. Isso é claramente um dos muitos sintomas que mascaram a homofobia.

Maternidade trans

Quando se fala especificamente sobre a maternidade, o feminino e o gênero, a discussão ganha mais camadas. Há quem diga que o papel sagrado de ser mãe anda indissociavelmente ao gênero biológico, como se para cuidar ou educar de outro ser humano, fosse necessário um útero. Essa associação, além de absurda, ainda transfere a responsabilidade maternal apenas ao papel da mulher, caracterizando uma raiz ainda profunda do machismo.

É neste momento em que olhamos para as mulheres transexuais e travestis que são mães. O conceito de homoparentalidade neste sentido, não abrange a parentalidade das mães travestis e transexuais, porque, novamente, faz alusão apenas à orientação sexual. Apesar de pertencer ao mesmo universo LGBTQIA+, esse corpos e vivências apresentam especificidades na construção identitária e, consequentemente, na relação como pais e mães.

Mães transexuais e travestis sentem-se e consideram-se mulheres, mesmo tendo nascido homens biológicos. Para elas,
é o gênero transformado que conta para a classificação como mulheres, e isso não deveria ser questionado. Isso barra ou dificulta muito a adoção de uma criança por uma pessoa trans. E mesmo em mulheres trans que eram anteriormente pais, essa relação de papéis acaba afetada.

Seria ótimo dizer que há tempo para que essas transformações sejam feitas com uma transição consciente da sociedade, pautada em discussões, embasamento e principalmente, em aceitação. Porém, assim como outras conquistas, o direito de ser mãe para além do gênero tem sido imposto por estas pessoas que desafiam o status quo e se impõe perante o retrógrado.

São muitas as histórias que vão ser contadas nas próximas décadas. A verdade é que essa transformação social é orgânica, e molda-se baseada em avanços ainda lentos, nos diálogos que a nossa sociedade está disposta a propor. Essas transformações têm implicações psicológicas, sociais, jurídicas, e vão precisar de muita luta para se fixarem dentro de uma sociedade binária e preconceituosa.

Ser mãe não é padecer no paraíso. Ser mãe é acolher dentro do amor, outro ser humano. Em paciência a sua vivência. Em justiça a sua individualidade. Mas acima de tudo, ser mãe não é um papel socialmente obrigatório – é o mais puro afeto de um ser humano por outro, porque advém do amor fraternal e não da biologia. A parentalidade vai além do útero; e muito além do gênero. 

Abaixo, algumas mães que dão exemplo de como o amor maternal tem mais a ver com acolhimento do que com biologia:

Representatividade e exemplo

Ana Carolina Apocalipse – @anacarolinaapocalypse

Ana representa o que temos de mais bonito no ser humano: a capacidade de se reinventar, de viver sua verdade, não importa quanto tempo isso demore para acontecer. Ana viveu 59 anos de sua vida como homem. Desta vivência, nasceram dois filhos, Cristina e Rachid, que hoje adultos, acompanharam seu maior passo pessoal. Aos 62 anos, ELA é uma influenciadora potente, que desafia os moldes não apenas de gênero e parentalidade, mas também de idade. É mãe, idosa e transgênero. Para seus mais de 86 mil seguidores no Instagram, fala sobre as experiências vividas, levanta a importância da luta pelos direitos e ainda é embaixadora de marcas sobre beleza.

 
 
 
 
 
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MC Trans – @mctransoficial
MC Trans fez barulho recentemente ao participar de um quadro na internet onde confrontava uma feminista radical, comumente chamada de “radfem”, que entre outros posicionamentos, excluem mulheres trans e travestis como identidades válidas. Mãe desde os 19 anos, travesti, cantora e agora influenciadora, ela dialoga com sua arte e suas experiências para mais de 450 mil seguidores no Instagram. No mês de maio, protagonizou uma campanha de Dia das Mães ao lado do filho Nathan, mostrando que o mercado publicitário está mais aberto a entender essas relações com diversidade e aceitação.

 

 
 
 
 
 
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Alexya Salvador – @alexyasalvadoroficial
Alexya foi a primeira travesti a completar com êxito um processo de adoção no Brasil. Sua transição foi realizada quando ela ainda tinha 28 anos de idade. Casada há 12 anos, a coordenadora pedagógica, hoje mãe de Ana Maria, Deyse e Gabriel, é ativista, reverenda, e batalha pelo de mulheres travestis a ocupar os mais diversos espaços na sociedade.