“Existe índio gay?” – A luta por reconhecimento do ativismo indígena dentro da cultura LGBTQIA+

Quem são os ativistas indígenas LGBTQIA + que lutam por visibilidade em um país que invalida sua existência e luta?

“Índio, fazer barulho, Índio, ter seu orgulho” – A imagem do palco do ‘Show da Xuxa’ nos anos 90, com indígenas claramente desconfortáveis cantando e dançando a então canção “Brincar de Índio”, diz muito sobre o que sabemos dos indígenas brasileiros – quase nada!

No último dia 19 de Abril, comemorou-se o Dia do Índio no Brasil. Uma data que é cercada de contradições, e revela memórias ainda muito superficiais sobre os comportamentos de cada povo dentro de um país continental. A verdade é que os indígenas brasileiros têm muito mais diversidade do que se imagina, e isso se reflete inclusive em como o debate LGBTQIA + é levantado. Afinal, existe índio gay? Existe sim. E existe muito tempo antes das invasões europeias. E se existe a homossexualidade no contexto indígena, obviamente existe também a homofobia. O escritor e antropólogo Estevão R. Fernandes, em seu livro “Existe Índio Gay?: A Colonização das Sexualidades Indígenas no Brasil”, demonstra como os vários povos indígenas no Brasil possuíam um grande conjunto de práticas que foram extirpadas pelos modelos conservadores de sexualidade, claramente pautados por valores de origem religiosa e moral do colonizador.

Vários estudos apontam, por exemplo, que em algumas sociedades ameríndias, um indígena do sexo biológico masculino, quando percebido LGBT, poderia ser instruído a conviver com as mulheres, em semelhança, mantendo, por exemplo, o comprimento dos cabelos mais longos em relação aos outros homens da tribo, executando inclusive trabalhos  atribuídos à elas. E este, apenas um exemplo de um vasto número de sociedades, cada qual com o seu comportamento específico, alguns muito à frente das sociedades atuais.

A primeira vítima de homofobia que se tem notícia no país foi Tibira, assassinado em 1614, no nordeste do país, deixando claro que homofobia chegou pelas caravelas, e infelizmente fez morada fixa em terras brasileiras. E se ser indígena no Brasil já era símbolo de resistência, o debate ampliou-se ainda mais nos últimos três anos com a intensificação das políticas de exclusão desses povos.

O atual movimento LGBTQIA + tenta abarcar os indígenas de fora para dentro do movimento, buscando trazer acolhimento para anos de total descaso. Dessa forma, amplia-se a rede de apoio e proteção de seus corpos diversos, indo não somente de encontro à letra G da sigla, mas também a todos os corpos existentes e válidos. As estratégias buscam conectar o fato de que os indígenas LGBTs possuem atualmente duas lutas distintas, mas que quando somadas, podem exercer maior poder de transformação.

Para ativistas que moram há anos fora de suas aldeias, a herança religiosa da colonização minou o acolhimento aos jovens LGBTQIA +. Inclusive, a morte de Tibira teve o aval dos jesuítas na época. Mesmo cientes de uma herança muito mais rica de em termos de aceitação, as gerações mais antigas foram sendo aos poucos moldadas pelo preconceito do homem branco. Muitos acabam saindo de suas aldeias, e encontram outro universo cercado de restrições e não reconhecimento.

Mas nem tudo é só lágrimas. A imagem do índio alocado mata adentro tem se contraposto às muitas figuras indígenas potentes que batalham na sociedade pela visibilidade. O índio atual tem redes sociais, curte a cultura pop, é inserido em movimentos sociais e políticos, vai à universidade graças a inserção de políticas públicas, e claro, tem muito mais para mostrar do que apenas seu legado regional. São antropólogos, cientistas políticos, deputados, ativistas, mas também educadores, artistas, maquiadores, escritores, bailarinos, e tantas outras profissões.

A verdade é que quanto mais os indígenas mostram suas facetas ao mundo, mais ensinam sobre a resistência que perdura por aqui há mais de 521 anos. Abaixo temos alguns conteúdos LGBTQIA + indígenas para se ficar de olho e acompanhar.

1 – A página @indigenaslgbtq

A página é um coletivo criado por indígenas e que conta com mais de 27 mil seguidores. O nome ‘Tibira’, é uma homenagem ao primeiro índio LGBTQ assassinado no Brasil, em São Luís do Maranhão, na então etnia Tupinambá, que prevalecia naquele local no séc. 17. A página conta com eventos, notícias, informativos e textos de resistência e acolhimento aos indígenas LGBTQIA + do país.

 
 
 
 
 
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2 – A cantora e drag queen @potyguarabardo

Potyguara Bardo se declara em sua bio como “criação em formato de criatura”. Os vocais potentes e a presença marcante da cantora traduz os seus mais de 116 mil seguidores fiéis no instagram. Seu primeiro álbum, “Simulacre”, alçou sua carreira e trouxe os holofotes para seu grande talento.

3 – Geni Nunêz – @genipapos

A jovem da etnia guarani, é ativista anti colonial, graduada e mestre em Psicologia Social, e doutoranda na Universidade de Santa Catarina (UFSC), além de co-assistente da Comissão Guarani Yvyrupa. Geni se declara não monogâmica, e não binária. Em suas postagens ela traz luz a questionamentos que vão muito além apenas da visibilidade indígena, dando complexidade às suas questões humanas diversas, falando de relacionamentos, traumas psicológicos, acolhimento, e claro, sexualidade.

4 – Uýra – @uyrasodoma

Uýra é artista visual multimídia, bióloga e educadora. Participou recentemente do documentário produzido pela Rede Globo “Falas da Terra”, especialmente em comemoração ao Dia do Índio, com falas potentes de ativismo. Já deu entrevista a diversos veículos de imprensa, e é tida como uma figura forte de protagonismo indígena LGBT.

O papel do homem branco na luta indígena deve ser de apoio. O protagonismo dessa luta tem nome, morada e muito conhecimento a ensinar a todos que desejam entender sobre esses povos de quem tanto se herdou na cultura do Brasil. Como LGBTQIA +, merecem inclusão, visibilidade e validação. Existe muito além do “índio gay”. Há um universo rico de informações as quais podemos trazer luz. Afinal, aprendendo sobre nosso povo originário, talvez o próprio brasileiro, perdido em sua mistura, se entenda de uma vez por todas.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Criadores iD