Parada SP

Bastidores da Primeira Parada Virtual do Orgulho LGBT+ de São Paulo

No último domingo, 14 de junho, aconteceu a Primeira Parada Virtual do Orgulho LGBT+ de São Paulo. Desde 2018, a Dia Estúdio transmite o evento que é considerado a maior Parada do mundo com uma programação recheada de conteúdos que complementam a manifestação.

Neste ano, por conta do pandemia do covid-19, diversos eventos foram cancelados ou atrasados, e a Parada de São Paulo foi um deles. Mas para não passar batido o mês do Orgulho LGBT em 2020, colocamos no ar uma live com mais de oito horas de duração. Ela foi transmitida em 13 canais simultâneos e atingiu a marca de quase 12 milhões de visualizações! Tudo isso para celebrar o orgulho da nossa comunidade.

Se você assistiu à transmissão, com certeza percebeu que este ano também tivemos uma série de conteúdos informativos e de entretenimento pensados de maneira estratégica para dar corpo à programação. Afinal, preencher oito horas de transmissão com conteúdo relevante para a audiência não é tarefa fácil.

Pensando nisso, neste texto vou revelar um pouco dos bastidores da produção de conteúdo da transmissão da maior Parada do Orgulho LGBT+ do mundo. Vamos lá?

Antes de tudo, precisamos falar sobre covid-19

Parada SP ao vivo

Esta não foi uma transmissão usual: isso não é segredo para ninguém. Por conta da pandemia do novo coronavírus, qualquer tipo de aglomeração de pessoas precisou ser evitada, seja ela de público, de apresentadores e até mesmo da equipe por trás da live.

Por isso, houve não só a preocupação com a limpeza do estúdio, mas também com a garantia de que o menor número possível de pessoas estivesse presente no local, garantindo sempre o distanciamento entre elas. Também é preciso lembrar que toda a equipe seguiu os protocolos de segurança, usando máscaras de proteção e realizando procedimentos constantes de higienização. 

Para além disso, todo o conteúdo e o roteiro da transmissão foram pensados levando em consideração essas variáveis. Ao todo tivemos oito canais de apresentadores fixos na transmissão: Amanda Guimarães, do canal Mandy CandyEduardo Camargo e Filipe Oliveira, do Diva DepressãoFernanda Soares e Herbet Castro, do Canal das BeeLorelay Fox, do canal Para TudoLouie PontoJean Luca e Spartakus Santiago e Nátaly Neri 

Todos eles, com exceção do casal Edu e Fih, do Diva Depressão, participaram de forma remota. O Diva, por sua vez, apresentou a transmissão em um estúdio completamente isolado, sem contato com qualquer pessoa da equipe. Isso se deu para garantirmos ao menos um sinal da transmissão, mas sempre com todos os cuidados de isolamento levados em consideração.

Pilares de conteúdo

Logo no início do projeto, definimos que cinco apresentadores gravariam conteúdos exclusivos para serem exibidos na transmissão. Esses conteúdos (VTs) foram divididos em pilares de assuntos e serviram de abertura para os blocos de discussão que estruturaram a programação da live.

Todos esses materiais foram roteirizados, gravados e dirigidos também à distância. Para padronizarmos o cenário dos apresentadores e termos uma unidade visual no projeto, foi enviado um kit com equipamentos de cenografia e iluminação, um fundo chroma key para a gravação dos VTs e um fundo específico para a apresentação da transmissão.

Sobre o pilares de assuntos, dividimos os VTs seguindo uma estratégia que levasse em consideração conteúdos relevantes e educativos para a transmissão, mas também a afinidade e domínio de cada canal sobre o tema.

Canal das Bee: Iniciativas Sociais

Canal das Bee

A Fernanda e o Herbett, integrantes do Canal das Bee, já possuem um histórico bem consistente de produção de conteúdo sobre a comunidade LGBT+ no YouTube. No canal, eles abordam os mais variados temas dentro deste nicho, por isso consideramos que eles teriam mais afinidade para falar sobre iniciativas de impacto para essa parcela da população.

Conversando e trocando sugestões, chegamos a quatro temas que se encaixavam dentro da proposta de iniciativas sociais. A primeira delas abordou o Movimento Mães pela Diversidade, uma organização de pais e mães de pessoas LGBT+ que faz um trabalho super bacana de militância e acolhimento da comunidade em um contexto familiar. O segundo foi vinculado à própria ONG que organiza a Parada de São Paulo, a APOGLBT, fazendo um resgate histórico da importância e da escolha dos Temas da Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo ao longo dos anos.

O terceiro deu visibilidade para iniciativas de empregabilidade da comunidade trans, como o Transempregos, que é o maior banco de currículos e vagas para pessoas trans do país. O quarto e último conteúdo deste pilar abordou iniciativas de acolhimento à população LGBT+ em situações de vulnerabilidade social. Neste VT, mostramos um pouco do trabalho da Casa 1 e da Casa Florescer. Ambas de São Paulo, têm um papel fundamental na acolhida de LGBTs+ expulsos de casa ou que se encontram em situação de rua.

Spartakus: Momentos Históricos da luta LGBT+ no Brasil

Spartakus

Para o Spartakus, preparamos uma série de roteiros que abordavam algumas das principais conquistas que o movimento LGBT+ teve no Brasil. Essa escolha se deu também pela afinidade do criador de dialogar com pautas nacionais e históricas de maneira bastante descontraída e leve.

Entendemos que esses materiais, além de servirem como momentos de descontração e respiro entre as entradas ao vivo, também deveriam ter o papel de educar a audiência sobre a história da nossa comunidade.

Assim, elencamos quatro momentos que mudaram o rumo da luta LGBT+ nacional. Começamos com a despatologização da homossexualidade no Brasil (episódio determinante para que os homossexuais não fossem mais vistos legalmente como portadores de uma doença psicológica); o direito à união civil e o casamento entre pessoas do mesmo sexo; a conquista do nome social e da cirurgia de redesignação pelo Sistema Único de Saúde (que foi um marco para a comunidade trans nos últimos anos); e, por fim, a aprovação do STF para enquadrar atos de homofobia dentro do crime de racismo.

Devido aos acontecimentos ainda deste ano, também incluímos no último VT o direito mais recente adquirido pela nossa comunidade: a exclusão da norma que restringia homossexuais a doarem sangue.

Louie Ponto: Personalidades históricas LGBT+

Louie Ponto

Na mesma linha editorial dos conteúdos sobre momentos históricos, também entendemos a importância de dar protagonismo a pessoas que foram fundamentais para a luta da comunidade LGBT+ ao longo dos anos. 

O didatismo da Louie, em conjunto a seu trabalho de conscientização de pautas pertinentes à nossa comunidade no YouTube, foi decisivo para a escolha de sua apresentação nesta vertente de conteúdos.

São muitas as pessoas que, de alguma forma, fizeram história na luta da comunidade LGBT+. Por isso você deve imaginar que escolher sete nomes para ilustrar esses vídeos não foi tarefa fácil. Juntamente com a criadora, elencamos uma lista que levou em consideração não só a importância histórica de cada um, mas também a máxima representatividade possível dentro dela.

Os nomes escolhidos foram: João Nery, Marielle Franco, Alan Turing, Cassandra Rios, Mulheres de Stonewall (Marsha Johson + Sylvia Rivera + Storme Delaverie), Frida Kahlo e João Silvério Trevisan. Com esta seleção, conseguimos englobar pessoas importantes para a história LGBT+ mas que também eram mulheres, negros, pessoas trans, latinos, PCDs e brasileiros. Isso tudo trazendo tanto figurais mais recentes e conhecidas, quanto personalidades mais antigas e não tão populares.

Além disso, para complementar o bloco temático que abordou os temas das Paradas LGBT+ dos anos passados, produzimos também um conteúdo que falava um pouquinho sobre o tema deste ano do evento, que era Democracia.

Conteúdos Fun: Jean Luca e Mandy Candy

Jean e Mandy

Para fugirmos um pouco dos VTs mais sérios e informativos, decidimos que teríamos um pilar de conteúdo mais divertido. Ele serviria mais como um momento de descontração da audiência do que necessariamente como um material para fomentar algum tipo de debate.

Por isso trouxemos criadores especialistas em contar histórias de maneira descontraída e instigante para apresentar essa vertente de conteúdo. O Jean Luca ficou responsável por compartilhar histórias engraçadas de influenciadores LGBTs com seus crushes. Participaram deste quadro os criadores Klebio Damas, Raony Phillips (RAO), Kim RosaCuca, Marcella Pantaleão e Matheus MoriMura.

Já a Mandy contou quatro histórias de amor entre pessoas LGBTs que recebemos nos dias que antecederam a Parada de São Paulo. A criadora compartilhou o relato de um casal de mulheres que se apaixonou no contexto do esporte; a história de dois melhores amigos que acabaram se unindo por conta de um fora; uma drag queen que encontrou o amor de sua vida no meio de uma manifestação política; e até a história de um trisal de pessoas trans que se conheceram no circo!

Representatividade na transmissão

Partindo dos conteúdos exclusivos e das discussões que seriam fomentadas por eles, desenhamos a programação levando em consideração nove blocos temáticos:

  • 1: Temas da Parada de São Paulo LGBT+
  • 2: Início do Movimento LGBT+
  • 3: Importância da Família
  • 4: Iniciativas Sociais
  • 5: Discussão Racial
  • 6: Olhar para o passado
  • 7: Mulheres
  • 8: Comunidade Trans
  • 9: Conquistas Recentes

Além da necessidade de abordar assuntos pertinentes para a comunidade LGBT+, prezamos sempre pela representatividade em todos os blocos de discussão da programação.

Entendemos que é fundamental a participação de mulheres (cis ou trans) e LGBTs negros na discussão de todos os assuntos pensados para a live. Por isso, garantimos que esses grupos estivessem representados em todos os blocos de discussão para terem suas vozes ouvidas pelo público. Afinal, as vivências e percepções dessas pessoas dentro da comunidade LGBT+ com certeza são diferentes e não menos válidas do que a do restante da comunidade.

Por isso, além de garantir que todos os blocos tivessem apresentadores negros e mulheres, demos um destaque especial para essas causas no blocos 5, 7 e 8. Respectivamente sobre Discussão Racial, Mulheres e Comunidade Trans. No bloco 5, trouxemos Nátaly e Spartakus para baterem um papo com a Thelma Assis, mulher negra e ganhadora da última edição do reality Big Brother Brasil.

No bloco 7, fizemos questão de colocar em cena apenas as apresentadoras mulheres da transmissão (Nátaly, Fernanda, Mandy e Louie) para discutirem suas vivências dentro da comunidade LGBT+. Por último, no bloco 8, além de contarmos com um show especial da Pepita, que é uma cantora trans, trouxemos para o debate a Mandy Candy e o Jonas Maria, que é um homem trans. Eles comentaram sobre o assunto nos seus lugares de fala.

É claro que existem outras variáveis da estratégia de conteúdo que não abordei aqui (eu poderia me alongar muito falando sobre este projeto), mas acredito que deu para sentir um pouquinho de como foi o processo de estruturação da programação da Parada de São Paulo Ao Vivo, certo? Se você ficou curioso para conferir os materiais que citei aqui, não deixe de dar uma olhada na íntegra da transmissão! Na descrição do vídeo você também consegue navegar pelos momentos-chave da programação!

 

Matheus Faisting

Matheus Faisting

Roteirista na Dia Estúdio, é jornalista de formação e produtor audiovisual com histórico de projetos focados na comunidade LGBT+. Com passagens por TV e empresas de marketing, entende a comunicação como uma poderosa ferramenta de transformação social. Do mainstream ao alternativo, é um apreciador de narrativas que engajam e, de preferência, com um bom plot twist.

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